Sobre se sentir confortável com a vulnerabilidade.

Antes de tudo, assista esse TEDx 🙂 The power of vulnerability – Brené Brown

Quero começar o post de hoje com uma pergunta: Quantas vezes você já desistiu de algo por não saber como seria o fim?

Ou melhor!

Quantas vezes você já desistiu de algo pelo medo de se sentir vulnerável?

A resposta é incalculável.

Para ilustrar um pouco essa reflexão quero trazer um exemplo que pode até parecer simples, mas envolve muita vulnerabilidade.

Imagine que você está planejando sua próxima viagem de férias. Você, nesse caso, tem duas opções: a primeira consiste em ir para a sua casa de praia, a qual você já conhece a estrutura, sabe que terá um banho quente no fim do dia, já conhece os amigos da redondeza e tem lugar marcado na frente da barraquinha da tia “nome da tia”. Essa é a sua escolha segura. Já a outra opção consiste em ir acampar em uma praia que você ainda não conhece, com todos os riscos dessa experiência se tornar a maior furada.

A maioria de nós instintivamente escolhe a primeira opção. Não quer dizer que ir para a sua casa de praia também não possa ser um programa de índio, mas o medo do desconhecido é tão grande que limitamos as nossas escolhas apenas àquilo que conseguimos prever. Isso faz parte dos nossos mecanismos de proteção que negam o estado de vulnerabilidade, ou de não conhecer.

Vulnerabilidade, segundo o Google, pode ser definida como “a característica de quem ou do que é vulnerável, ou seja, frágil, delicado e fraco. A vulnerabilidade é uma particularidade que indica um estado de fraqueza, que pode se referir tanto ao comportamento das pessoas, como objetos, situações, ideias e etc.”.

Fraco? Google, Google. Suas definições precisam ser atualizadas.

Um outro exemplo que pode nos ajudar a entender um pouco mais sobre vulnerabilidade se encontra em uma música que me inspirou a escrever sobre o tema, a “Elephant Love Medley” do filme “Moulin Rouge“. Nesta há um diálogo cantado entre os dois protagonistas que diz:

Nicole:
Você, você será mau.
Ewan:
Não, eu não serei.
Nicole:
E eu, eu vou beber o tempo todo.
Ewan:
Nós deveríamos ser amantes.
Nicole:
Não podemos fazer isso.
Ewan:
Nós deveríamos ser amantes, e isso é um fato.
Nicole:
Apesar de que nada vai nos manter juntos.
Ewan:
Nós podemos roubar tempo.
Ewan & Nicole:
Apenas por um dia.

Para aqueles que ainda não assistiram o filme (assista!), a história trata de um escritor que em plena boemia francesa se apaixona pela prostituta mais exclusiva do cabaré “Moulin Rouge”. Que situação né migo? Mas enfim. Com isso em mente, e lendo o diálogo, quem você acredita ter mais medo de se sentir vulnerável? Eres tu, Nicole.

Imagina só… A mina é a prostituta mais requisitada de todo o cabaré e aparece um escritor falido, que oferece amor de graça. Ela basicamente fala: querido, quem vai pagar minhas contas? Eu não vou me jogar nesse poço sem fundo não.

E é exatamente nesse “poço sem fundo” que eu queria chegar. Aquilo que nós não conseguimos ver o fim pode ser aterrorizante para muitos.

O desconhecido dá medo. A sombra é desconfortável. Mas não é por isso que temos sol o dia inteiro – a noite é necessária para obtermos equilíbrio.

Esses dias estava conversando com uma amiga sobre como é difícil encontrarmos pessoas dispostas a se envolver por inteiro, mostrando o belo e o feio do que nos compõem sem medo de ser feliz. (Ai como o mundo seria mais bonito se não vestissemos as máscaras do dia a dia, né não?)

Mas como ainda não podemos revolucionar o mundo inteiro, comecemos por aquilo que nos cabe: nós mesmos.

Guia para desconstruir a vulnerabilidade que há dentro de você

Brincadeiras a parte, cada um sabe o momento certo para encarar o sentimento de vulnerabilidade com menos desconforto. Porém, existem algumas dicas práticas que particularmente funcionaram para mim e hoje tornam essa montanha russa chamada vida mais leve e emocionante.

Talvez você não saiba, mas eu sou uma pessoa extremamente ansiosa. Ansiedade aquela que já me jogou em crises em que eu realmente achei que meu mundo fosse desmoronar – mas não desmoronou. E falar sobre esse assunto ainda é um puta tabu social. Não é como se eu pudesse chegar em alguém e falar: “Oi, meu nome é Giulia e não tenho crises de ansiedade há 24 horas” (AA – Ansiosos Anônimos rs.). Mas isso faz parte, sim, de quem eu sou, e quando vou conhecendo alguém esse é um tópico que aparece. Isso muda a percepção da pessoa sobre mim? Sim, é mais uma característica que se somará ao infinito de percepções que já foram registradas. Eu vou deixar de assumir essa parte de mim por isso? Já deixei, mas hoje percebo que esconder algo que representa parte do que eu sou, na verdade, é a coisa menos orgânica que eu posso fazer.

E crises de ansiedade, aliás, são uma das coisas mais vulneráveis que alguém pode sentir. Na vida! É uma daquelas horas em que você percebe que, na verdade, não tem controle de nada. Toda aquela armadura composta das mais profundas camadas simplesmente se dissolve e você se sente completamente nu.

Mas o mais louco disso tudo é que quem construiu essas barreiras fomos nós. O medo de mostrar aquilo que somos foi erguido por escolha própria. E baixar essas barreiras é uma escolha nossa, também.

Então, para dar continuidade a esse pensamento, e se aprofundar em um tema que eu trago em quase todos os meus posts (e sim, você pode achar que esse blog está virando mais um blog de relacionamentos do que qualquer outra coisa, porém… ), quero falar sobre amor.

Amor, se duvidar, é o sentimento que mais nos deixa em um estado de vulnerabilidade. São tantas emoções, dúvidas e incertezas que nos rodeiam desde o instante 1 que conhecemos alguém, que o mar de surpresas pode ser algo bem desconfortável.

Por amor, não precisamos entender apenas relacionamentos amorosos, mas sim todo e qualquer tipo de envolvimento – seja com família, amigos, conhecidos e, também, parceiros.

Esses dias conheci uma pessoa bem racional. Sabe aquele tipozinho de gente que precisa entender todo o A + B para que as coisas fluam “naturalmente” na sua cabeça? Pois bem, assim.

Só que uma coisa muito legal aconteceu. E muito inesperada, também.

Eu estava andando meio sem rumo e avistei uma galera sentada na ponta de um píer. O meu instinto me falava: “Pra quê parar? O que isso vai mudar no seu dia?”. Mas como eu adoro desafiar meus pensamentos, resolvi me juntar ao pessoal.

Na hora esse serzinho racional me solta:”Que fumar um tabaco?”. Claro, rs.

E o que era papo de mamão com açúcar, acabou se tornando um papo infinito sobre porque somos o que somos e fazemos o que fazemos. Foi surpreendente.

Vocês sabem a quantidade de vezes que ouvi, nessa conversa, a frase: “São tão poucas pessoas que sabem disso”? Muitas. Porque guardamos a sete chaves tantas “coisas que poucas pessoas sabem”, a fim de não estabelecer laços reais uns com os outros?

Porque não é fácil.

Se desarmar é, talvez, o maior desafio da humanidade. Já podemos ver pelo nosso futuro presidente, né? (rindo, mas é de nervoso).

Uma outra coisa que também reflete o nosso medo de nos sentirmos vulneráveis é um simples toque de mãos.

Para ilustrar isso, vou te propor um exercício: escolha uma pessoa que você não tem muita intimidade e deixe ela pegar na sua mão. Você não precisa fazer nada, só deixar com que ela toque, acaricie ou faça o que bem desejar. Aposto que você ficou com um frio na espinha só de imaginar, não?

Olha que doido: nós saímos por aí, transando e beijando bocas e corpos que mal conhecemos mas um simples toque de mãos é assustador. Não deveria ser o contrário?

Para mim, um entrelaçar de dedos é incontáveis vezes mais íntimo do que um beijo. Real.

Se deixar, genuinamente, nas mãos de alguém é foda. Exige entrega e confiança, dois aspectos bem complexos de se encontrar nos dias de hoje.

Uma exposição polêmica que também retrata uma situação parecida foi quando a artista Marina Abramović, em 1975, disponibilizou 72 objetos para serem utilizados em interação com o seu próprio corpo pelos visitantes da galeria. Dentre os objetos era possível encontrar penas, flores, perfumes, comidas, vinho, bem como lâminas de ferro, facas e até uma pistola carregada. A única explicação da obra era uma placa dizendo “Há 72 objetos na mesa que se pode usar em mim como quiser. Performance. Eu sou o objeto. Durante esse período eu me responsabilizado totalmente.“.

Consequência? As mais diversas. Pessoas a acariciaram com penas, flores, e o que ela intitulou de “objetos de prazer”. Porém também vimos o contrário, como homens que a apalparam, rasgaram suas roupas, a cortaram e apontaram a pistola em sua cabeça. Foda.

O que essa experiência realizada pela Marina pode nos mostrar é o quanto estamos dispostos ao nos tornarmos mais vulneráveis.

É claro que é importante identificarmos mecanismos de proteção em nossas vidas, mas não a todo momento. Pois se vivemos apenas dentro de nossas próprias torres de segurança podemos nos livrar de situações indesejadas, mas também impedimos que sentimentos, pessoas e situações incríveis e prazerosas aconteçam.

Portanto o ponto aqui é: saiba quando baixar a guarda. Nem todo mundo deseja o seu mal – na verdade, a maioria das pessoas apenas utiliza o mal como ferramenta de defesa.

As nossas bolhas de conforto são, em muitos casos, meras ilusões. Por Deus! Se não conseguimos garantir nem mesmo o que irá acontecer com a gente nos próximos segundos, quem dirá uma vida inteira.

O simples fato do nosso nascimento, em que ocorre uma batalha de milhares de espermatozóides aleatórios por um óvulo já não te provou que o novo vem do ato de deixar ser?

O risco de dar tudo errado é iminente. Mas o que você prefere: viver uma vida com o risco de grandes prazeres e decepções ou um vida sem esse risco, porém também sem grandes prazeres e decepções?

Na próxima vez em que for fazer uma escolha, seja se relacionando com alguém, escolhendo um destino de férias ou até decidindo a sua próxima refeição, reflita: será que eu estou escolhendo esse caminho pois é o que eu realmente desejo, ou simplesmente pelo medo do desconhecido?

Ser vulnerável não é simples. Não é fácil. Mas essa seja talvez a coisa mais humana que possamos fazer.

Sugestão de música do dia – Clareia – Scalene e Francisco El Hombre

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