Precisamos falar sobre responsabilidade afetiva

O quanto eu te falei

Que isso vai mudar

Motivo eu nunca dei

Você me avisar, me ensinar

Falar do que foi pra você

Não vai me livrar de viver

Quem é mais sentimental que eu?

Eu disse e nem assim se pôde evitar

Sentimental – Los Hermanos

O meu post de hoje começa com um trecho do Los Hermanos. Quis trazer essa passagem pois ela se relaciona diretamente com o que quis me propôr a refletir com vocês: responsabilidade afetiva.

Nos últimos tempos tenho tentado entender o que ser responsável afetivamente significa. Vi alguns filmes, lí artigos, ouvi músicas, conversei com amigos, e percebi que existem mais perguntas do que respostas para esse tema. Fomos tão domesticados a viver relacionamentos de uma determinada maneira, que nem paramos para nos questionar sobre isso. O problema é que essa tal de responsabilidade muitas vezes fica de fora da nossa lógica de se relacionar – e digamos que isso torna tudo um pouco mais complicado.

Então vamos começar do começo. E por começo digo começos de relacionamentos.

Esses dias fui assistir um Stand Up na Netflix da comediante americana Iliza Shlesinger, chamado “Elder Millennial”. O show inteiro é cômico, e vale muito a pena assistir, pois além de ser uma feminista de carteirinha, ela ainda reflete sobre várias questões de como agimos na vida, com foco exclusivo para os tabus sociais.

Mas a passagem que eu mais gostei foi quando ela fala sobre a forma como entramos em novos relacionamentos – e é genial!

Iliza retrata a seguinte cena: conhecemos uma nova pessoa. “Eba! Que empolgante! Deixe eu pegar todas as cargas de relacionamentos passados, colocar na minha bagagem afetiva, e… Querido! Cheguei!”.

(A cena toda é muito engraçada, pois ela simboliza as nossas cargas como “pequenas caixinhas”, que somadas se tornam um grande e pesado fardo)

O que a comediante retratou pode parecer engraçado, mas no fundo é uma bela crítica ao que todos fazemos ao ingressar em um novo capítulo – nós simplesmente pegamos tudo aquilo que já vivemos e despejamos em uma pessoa que ainda nem conhecemos direito. Todas as nossas cicatrizes mal cicatrizadas, todos os nós na garganta, todos os pés na bunda e frustrações são deliberadamente trazidos para “escrevermos uma nova história”.

Eu não sei se a crítica fica clara para todos (como comentei no início do post, fomos domesticados a nem pensar sobre isso), então vou tentar explicar sob o meu ponto de vista:

Você conheceu uma nova pessoa. O encontro foi incrível, cheio de risadas, conversas eternas e planos mágicos. As coisas começam a ficar mais interessantes, vocês continuam a sair e tudo vai ficando mais sério. Na sua cabeça, tudo o que você já viveu no passado terminou. Aquele sentimento de empolgação e ansiedade batem forte no peito, e os laços vão se estreitando. E aí, vocês resolvem namorar.

FO-DEU.

(RED ALARM!!!!)

O que acontece em muitos casos é que a ideia de viver algo completamente novo é tão bonita que não nos preocupamos em entender o que estamos trazendo à mesa. Como diria minha taróloga preferida, Paula Prado, existe uma frase que deveria ser lema na cabeça de todo santo indivíduo na galáxia: “Eu sei o banquete que eu sirvo. Se não quiser ficar, eu não tenho medo de comer sozinha”. Mas será que a gente realmente sabe o que serve? E principalmente, será que o que estamos oferecendo é de fato um banquete, ou é aquele big mac de propaganda enganosa?

Na maioria dos casos, o big mac prevalece. Só que a outra pessoa está com tanta vontade de sentar naquela mesa com você, e você já atiçou tanta curiosidade sobre o tal do banquete, que ela vai sem nem pensar. Malditos marqueteiros.

E aí é dito e feito: dor de barriga. No caso do relacionamento serve o que você quiser pensar como metáfora para dor de barriga – brigas, frustrações e quebra de expectativa. Poxa, eu queria tanto aquele big mac lindo que os milhares de anúncios e propagandas me apresentaram, por que raios eu não fui pensar antes de comer?

Porque, queridos amigos, o tio Mc não quer que você saiba a realidade. Simples assim.

(Risada malvada ao fundo)

No dia a dia, nós somos tanto Ronald McDonald como quem compra o Big Mac. Mas eu normalmente falo muito sobre o papel de quem está do outro lado da mesa, e esse post tem mais a ver com quem oferece algo (vulgo, nós).

Se todo mundo tivesse plena consciência e responsabilidade do que está oferecendo ao outro ao ingressar em um novo relacionamento, as coisas seriam mais simples. É claro que toda a nossa bagagem emocional ainda vai existir, ela constitui quem somos. Mas essa bagagem não tem que se tornar a base de uma nova relação. Até porque, ao fazermos isso já fodemos com todo o novo que está para acontecer, pois ficamos presos a comportamentos e padrões de histórias do passado, sem perceber que isso é a coisa mais tóxica que podemos fazer ao outro.

O que eu quero dizer aqui é que é claro que vamos trazer partes essenciais de nós que foram criadas a partir de fatos do passado. Mas o que normalmente acontece é que ao invés de levarmos as coisas boas, nos prendemos em amarras desenvolvidas a partir das coisas ruins. Por isso que a maioria de nós sente que se meteu em uma armadilha depois que a máscara caí: because honey, it is a trap.

Como se tornar um ser humano melhor e não criar armadilhas afetivas

Primeiramente: pare! (Pegue o bumbum).

Literalmente, pare. Pare que a coisa tá feia. Agora respira fundo, e vamos lá.

Quando foi a última vez que você se perguntou sobre o que você gostaria de levar para um novo relacionamento? É muito importante apontar que normalmente nos perguntamos o que queremos de uma relação, e não o que vamos oferecer.

Esse é o primeiro passo.

Imagine que você vai preparar um banquete para alguém que você gosta muito. Quais são os ingredientes que você vai usar? Você vai seguir alguma receita? Quão cuidadoso você vai ser com o processo? Se é um banquete para alguém que eu gosto tanto, eu realmente tenho que preparar tudo com tanta pressa?

Metáforas à parte, o ponto aqui é refletir sobre quem você é e o que faz sentido levar à mesa quando nos propomos a se envolver com alguém.

Às vezes, você ainda não tem os ingredientes suficientes para preparar aquele banquete incrível: e tá tudo bem. Se dê esse tempo que é tão sagrado e tão seu.

A responsabilidade afetiva nasce daí. De olhar pra dentro e perceber se você está pronto ou não para abrir as portas da sua casa para alguém. E quando estiver pronto, aja com consciência e com respeito – com você e com o próximo.

A gente sabe que quando alguém vai conhecer a nossa casa, queremos fazer um tour por todos os quartos e cômodos, mostrar as fotos de quando éramos crianças, aquele livro de desenho rabiscado, os jardins floridos e etc. Mas existem certas coisas que são só nossas, e que não precisamos sair por aí despejando no outro. E também existem outras, que com o tempo a gente mostra do jeito certo (com calma e espaço para isso).

O segundo passo tem a ver com desapego: ato de deixar para trás.

A maneira como apresentamos a nossa bagagem importa, mas existe algo prévio a isso que é entender o que realmente tem que ser parte daquele novo relacionamento, ou que podemos simplesmente deixar para trás.

Um exemplo é a insegurança emocional. Vamos supor que você já tenha levado alguns pés na bunda, e isso te tornou mais rígido e menos crente no amor. Aquele brilho que as paixões dos vinte anos tinham já parecem não ter mais graça, e toda vez que uma pessoa nova aparece bate aquele mesmo pensamento: xi, já sei o que vai dar. Melhor nem tentar.

Meu bem, acorda: você não está nem se dando a chance de dar certo pois já ingressa pensando no fim. Como ter um relacionamento espontâneo e gostoso, quando já não vemos nem graça naquilo tudo?

Se envolver dá medo pra caralho. Não é fácil! Mas se continuamos a fazer as coisas sempre iguais, elas vão continuar sendo iguais.

Não estou falando que você tem que deixar de ser inseguro emocionalmente do dia para a noite, mas se você não se sente pronto para se envolver, busque trabalhar isso dentro de você antes de se abrir para uma nova pessoa. Você poupa o seu sofrimento e o do outro também.

Relacionamento não são fáceis, e eu estou longe de ser profissional nisso. Mas a cada dia tenho tentado realizar o exercício de me questionar e me entender. Faça esse bem para o mundo também 🙂

Se todos nós sairmos um pouquinho do ego e das nossas próprias bolhas, veremos que as coisas são muito mais simples do que parecem. Só é preciso dar o primeiro passo.

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